Um deus caído pode ser qualquer um, um poeta não
há um cachorro noturno
latindo nos meus olhos
murchas sementes de sol
são embaladas como sentença secreta
de lábios a ouvidos
nada mais é dito
a luz é farsa em forma de alarido
poetas não adivinham mais sequer o passado
o servo da complexa trama sempre soube
que inevitavelmente serviria a dois senhores
o mistério que não mais há
girava em torno de saber onde o pacto foi amarrado
tendo o corpo como assombro
a consagrar a morte de tudo
Escrito por dylpires às 10h54
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quando uma frase de J.L.B. detona todo o século XXI
uma breve visita.
como um vulto de pássaro sobre o telhado
as mobílias do interior desapareceram.
isso. sorria.
mas a diária conversa com o invisível
não restitue mais a perda de uma coisa infinita.
talvez o brincar de ser do existir
retorne a aparição de antes.
torça.
não lhe resta outra coisa.
Escrito por dylpires às 17h29
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Arte: Roda, Milton da Costa. O Palhaço, Di Cavalcanti.

sonhei com sapatos
suspensos por balões
brincava de roda num parque inóspito
olhos atônitos não entendia como nos movíamos
se a roda estava sempre parada
papai e mamãe estavam lá
e balbuciavam algo para mim
a chuva chegou como alguém
que anda arrastando os pés
perdi o último sapato de vista
partir e espelho
foi tudo o que ouvi
Escrito por dylpires às 09h35
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fragmento achado em 2061 nos subterrâneos da feira da praia grande
pedaço de náufraga coisa
sombra que se contorce
passarela-matadouro do ver
espero pela primeira partida
para sentir tal qual uma perna ausente
o tempo como um aleijume
lis-jorgeane-catarina-gissele-rose-cássia-gilberto-jales-alexandre-hagamenon-bioque-ailton-ricardo-natan-josoaldo-couto-paulão-samarone
um único nome
o nome mais comprido do indizível
intranquilos dias do espírito
íntimos ruídos nas fundas águas da voz
caixão-espelho
o mais-do-mesmo
Escrito por dylpires às 11h36
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estou de volta. mas há dois dias estava em são paulo. pelo entorno da luz. a mais bela das estações. sair de um espaço e entrar em outro no mais brevíssimo possível me fascina muito. um caminhar rápido, e já estava enfileirando a lista de visitas ao museu da língua portuguesa para ver machado de assis. a exposição começou dia 15. e vai ficar por 6 meses. assim também foi pretensamente com duchamp que estar no MAM. mas duchamp como bem escreveu gerald thomas no seu blog ( o link está aí ao lado) não precisa de uma retrospectiva. é até mesmo, de fato, um insulto a tudo o que ele representa ou não representa(?!). afinal, como posso ter uma retrospectiva de idéias, conceitos, já que obra mesmo é o de "menos"?! mas teve aquele maravilhoso e cômico bate papo entre o gerald thomas e o alberto guzik no sesc da paulista. intitulado como "O QUE DER NA TELHA". Na hora "h" acabou mesmo dando pouco na telha do público. que ao meu ver jogou tudo para o mar das "perguntas mortas" como a exemplo de: "o que é arte?" guzik, como sempre foi bem generoso. mas gt partiu para cima da perguntante (literalmente!!) e performatizou alguma luz sobre a criaturazinha meigamente burguesa que quer “pensar o fragmento” sob a perspectiva de um todo falido. Andar por aquelas bandas não é mais novidade... mas eu não vivo atrás de novidade. Somente de algo que escandalize o espanto que trago em mim. Ou mesmo, o inverso... sei lá! E volto. E me deparo com a morte de mestre Felipe. Tambor grande, meião, crivador. Adeus tudo. E não adianta ter passado para outros o aprendizado. A ciência da coisa. Não adianta. Que ótimo que alguns aprenderam... mas mesmo assim não adianta. É a mesma coisa que senti quando fui ver o museu do inconsciente. A idéia está lá. O projeto tocado para “frente”. Mas falta a nise da Silveira. Os herdeiros de hoje são pessoas que compram as idéias sem se angustiarem com as mesmas. O tambor se calou para sempre mesmo. Acreditem! E como se não bastasse, eu ainda sinto amor por tudo isso... ou prazer! Acho que esta é a palavra mais apropriada. Prazer por sermos somente “o fantasma da dor de existir!”
Escrito por dylpires às 16h17
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Orides Fontela
quando o desencanto
é um pensamento concluso.
quando a escolha revela
uma fé. um torcedor. e só.
quando o círculo só é fechado
pra quem o olha de fora.
quando nele não há superação.
quando é sempre isso.
Escrito por dylpires às 10h22
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...
Escrito por dylpires às 14h06
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COREIRA TRISTE
uma coreira triste no fogo cruzado das paixões humanas
a fisicalidade da Roda evoca negras pancadas de sensualidade
uma espécie bruta de saudade pesa mais
que o próprio corpo e a alma em desconforto
quando em cáusticos rodopios alinhava alguma morta espera
que já é falta do que se tem
como se não mais se tivesse
a atmosfera o ritmo o fogo que afina a alma em sílabas de morte
e a escuridão da pungada que se multiplica
nascem do desvão do olho
como hóspedes de um existir que não significa
os pés marcando o rito são o fetiche de uma morada
a pungada eivada de mistérios
dando ao corpo distintas catarses
nenhum kouros/coreiro jamais lhe saberá
uma coreira triste na Roda emerge do período azul de Picasso como se de Casagemas se embriagasse em dor
e a esta se restringisse uma só lembrança
na medida daquela sombra eterna
pendurada nas vazias paredes do Ser
como um guarda chuva a advinhar
os melindres na tempestade
daqui de fora da Roda enquanto ouço do mais enterrado desejo
à fantasmais latidos na carne grito com os olhos: “o teu silêncio é um leque. Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo, mas mais belo é não o abrir para que a hora não peque... ”
uma coreira triste na Roda
só pode colher maduros espantos finais
Escrito por dylpires às 11h36
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tô indo pra são paulo na sexta feira. devo retornar dia 20. quem sabe de lá escrevo alguma coisa para o blog. abraços a todos quanto possa interessar!
Escrito por dylpires às 14h28
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Poema das mães em hospital público
os pés de minha mãe jogados no cesto de lixo
na sala de espera
sei que seus pés já são dois nacos de coisa podre
que escondo enquanto ela dorme
está tarde, também começo a construir imagens
sobras de algum inverno
na noite nômade e arcaica, em que me junto a outros gritos
com medo dos lobos - e dos cutelos
Antonio Ailton (autor de As Habitações do Minotauro, poesias)
Escrito por dylpires às 12h08
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A morte não precisa das cinzas do carnaval
Marcelo Mirisola*
No primeiro caso, falou-se em pobreza, racismo e de um suspeito jogo político envolvendo o Exército, o vice-presidente da República e o seu candidato a prefeito na cidade do Rio de Janeiro, o ex-bispo e senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). Três homens morreram. No segundo caso, especulou-se quanto à legitimidade de um PM fazer a segurança da noitada para o filho de uma promotora ameaçada de morte. Não quero, aqui, repetir o que se falou e o que se especulou à exaustão ao longo dessas semanas. Em pouco tempo os assuntos estarão datados, e as estatísticas do IML – para todos os efeitos – são mais veementes do que os lugares-comuns.
No primeiro caso, não foram “somente” três negros e pobres entregues à sanha de traficantes por um tenente do Exército que perderam a vida. Consta que o tenente aloprado não curtia funk. Os três eram funkeiros. No caso da boate na zona sul, não foi "apenas" o estudante rico e branco de promissor futuro blindado, que levou um tiro no peito. Quem morreu foi o playboy.
Creio que, antes de se tornarem vítimas, tanto os funkeiros do morro da Providência como o playboy da boate Baronetti eram – e continuam sendo – protagonistas dessa história. Difícil considerá-los vítimas como, por exemplo, era vítima uma esposa assassinada em flagrante adultério no ano de 1956. Existe uma incompatibilidade entre o fato e a questão. Existe outro tempo, e lugar. O tempo é o dos assassinos. E o lugar é o da barbárie, onde a idéia do Estado é uma abstração, portanto o Estado não existe. Não existem realejos. Nesta terra devastada, os chás beneficentes e todos os penduricalhos são dispensáveis, inclua-se aí a família e o choro das mães. Não sei se convém dizer que existe uma outra lógica para entender os dois casos. Mas vá lá. Vamos chamar de código paralelo ou de uma guerra suja, cujas partes envolvidas desdenham daquilo que um dia convencionou-se chamar sociedade organizada. A serpente finalmente saiu do ovo.
Pobres, pobres mães. Que não choram mais o cadáver dos filhos, mas o defunto de uma época desconhecida e esquizofrênica. Aliás, é curioso notar que a única compatibilidade que existe entre a figura antiga do cadáver de narinas de algodão e os músculos adquiridos na academia de musculação é a pobreza da rima – e mais nada. O luto não serve mais para vestir o novo, há um descompasso e um pragmatismo gelado no ar. A morte não precisa mais das cinzas do carnaval. A morte perdeu a eloqüência, e perdeu a elegância.
Por isso que o filme Tropa de Elite fez e faz tanto sucesso. Ele anuncia que a oratória de Ruy Barbosa e o famigerado Estado de Direito simplesmente não existem para os lutadores de Jiu-Jitsu, nem para os funkeiros, muito menos para a “galera” da pedofilia no Orkut. O Brasil é um retrato na parede que não deixou nenhuma saudade. Carlos Drumonnd de Andrade não existe para quem tem menos de trinta anos, está desempregado e mora do lado de lá da Ponte João Dias. O lado de lá – desculpem o trocadilho – não está nem aí para Montesquieu. Ou melhor, Montesquieu vive do lado de lá, disfarçado de Mano Brown (mas essa é outra história...). Mas do que eu falava?
Ah, lembrei. De roupas brancas, carnaval e morte.
Vamos lá. As passeatas e os abraços no Parque do Ibirapuera e na Lagoa Rodrigues de Freitas, bem como os apelos por mais tolerância e as respectivas missas ecumênicas realizadas depois do massacre de cada semana, são tão patéticos quanto as madames escandalizadas com as criancinhas que apodrecem no semáforo do shopping. O grito e o choro das mães e a “indignação” das autoridades são tão inócuos e paquidérmicos quanto o trânsito congestionado nas grandes cidades. A fantasia tropical e o azul do céu foram subtraídos pela realidade excludente de quem luta pela sobrevivência – não importa se o gueto é uma boate em Ipanema ou uma ONG no Jardim Pantanal.
Hoje em dia, no Brasil, até o fato de se “propor” soluções é recorrência de atraso. Não deu certo antes, e agora – lamento dizer – é tarde demais. O fato de aumentar o efetivo de policiais nas ruas, ou construir novos presídios de segurança máxima, é algo tão primário e agressivo quanto a violência que se pretende combater. Se levarmos em conta a ação e a reação dos envolvidos na matança do dia-a-dia (incluam-se todos os meios de matar: Igrejas, programa do Faustão e congêneres, clínicas de cirurgia plástica, clínicas de aborto, Parque da Mônica, etc ); bem, se levarmos em conta a aniquilação daquilo que um dia chamamos de “humano”, vai ficar difícil de encontrar um escaninho que sirva para tipificar este ou aquele crime: até a noção do que é crime está ultrapassada. Sabem por quê? Simples: porque quem morreu podia perfeitamente ter matado.
O nome disso – repito – é guerra. Não há câmera de vigilância, nem condomínio fechado, nem qualquer tipo de monitoramento e/ou sistema de segurança que garanta a tranqüilidade... dos culpados.
De qualquer forma, é bom olhar para os dois lados antes de atravessar a rua . Só pra terminar: espero que o pessoal da Fashion Week tenha prolongado a festa e a estadia em Paraty - que é um encanto de cidade. Desejo do fundo do meu coração que aproveitem a fofura do lugar, porque num futuro próximo vai faltar água e comida para todo mundo. Tenham todos uma boa semana.
* Marcelo Mirisola, 42, é paulistano, autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô, O azul do filho morto (os três pela Editora 34), Joana a contragosto (Record), entre outros. Marcelo Mirisola escreve para o site www.congressoemfoco.com.br
Escrito por dylpires às 11h53
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o cocoricó do galo se tornou
um claro pedido de socorro
ouço-o sem o odor sereno de talco
no pescoço das manhãs
os quintais da memória
carregam a escritura de outro significado
mas a memória é a morte
e o galo já não canta mais senão o cadáver do último sol
sendo ele mesmo
um arranjo de penas e esporões fantasmas
Escrito por dylpires às 10h20
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a mãe tem anotado num caderno um verso de Jorge Luís Borges. diz ser sua a escritura que une em uma única linha morte e festa. nunca suspeitara da existência do bardo dos labirintos, shakespeare, espelhos, neblina. e como se não bastasse a solicitação de um mesmo ritual para quando do uso das duas mais altas máscaras de partida e chegada, a mãe também está ficando cega.
os móveis da infância há muito não estão no lugar. a memória não os organiza mais como lembrança. a presença esculpida como um cemitério de gestos e o olho que começa a mancar na escuridão são os dois últimos legados de uma estrada comprida vista da janela pelo filho cujo silêncio é um ensaio para outra morte.
Escrito por dylpires às 18h58
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FELIZ ANIVERSÁRIO,CATARINA!!!
Escrito por dylpires às 09h40
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ANDRÉ VALLI, O ETERNO VISCONDE DE SABUGOSA!
a minha infância vai ficando cada vez mais ofuscada. morreu ontem o ator André Valli. lembro que saia correndo da escola sotero dos reis para assistir no finalzinho da tarde o sitio do pica pau amarelo. o visconde de sabugosa, naquele sítio de personagens maravilhosos, era um dos meus favoritos. disparadamente, 2008 já é o ano de mais perdas dos até então vividos por mim. a infância se tornou o espantalho gigante recheado de pássaros cegos...
Escrito por dylpires às 09h34
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